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03/07/2014
Sete etapas para gerar inovação nas empresas

Carlos Arruda (*)

(26/01/2014) - O presidente de uma empresa de engenharia me escreveu recentemente sobre sua experiência com o uso de brainstorming para inovação. Segundo ele, nenhuma ideia realmente interessante tem saído desses processos.

Esse problema não é novo. Há alguns anos, um banco brasileiro resolveu criar o que eles chamaram de usina de ideias. Reuniram em uma sala dezenas de profissionais brilhantes, que durante meses geraram ideias para o futuro do banco. Depois de alguns milhares de reais perdidos em tempo e milhões de reais perdidos em ideias que não funcionaram, o banco resolveu abandonar a usina e criar uma incubadora – que teve resultados mais adequados.

Por que o isolamento das pessoas em práticas como brainstorming ou usinas de ideias não funciona? Primeiro, porque as empresas não deixam de inovar por falta de ideias. Na realidade, isso sobra. Segundo, porque ideias sem que existam problemas ou oportunidades não servem como base para inovar. As inovações são aplicações práticas de ideias que podem gerar resultados na forma de ganhos financeiros, redução de custos operacionais e valor para os clientes e para as empresas. Uma ideia é apenas uma das etapas do processo de inovação. Antes, devemos ter claros motivadores e, depois, claras aplicações.

Meu convívio com empresas inovadoras me faz acreditar que o desafio não está na etapa de ideação, mas sim na clara definição de desafios para a inovação e na escolha de ideias que possam ser desenvolvidas. Há na internet um exemplo interessante desse processo. Trata-se da criação do capacete invisível para ciclistas urbanos. http://ca.autos.yahoo.com/news/swedes-develop-invisible-bike-helmet-184635653.html. O vídeo descreve o desconforto das autoras da inovação com o uso de capacetes para bicicletas (problema ou desafio). Em seguida, mostra o laborioso processo de pesquisa sobre o comportamento dos ciclistas e a ocorrência de acidentes quando o uso do capacete se justifica. Somente depois dessa etapa de pesquisa elas chegam a propor ideias para um novo capacete. A partir daí, passam ao processo de desenvolvimento, protótipos e lançamento do produto. No clássico método de decisão associado à cultura japonesa, investe-se mais tempo na análise do problema do que na decisão propriamente dita. Assim deve ser um processo de geração de ideia e de inovação. Veja as etapas.

1. Identificação de oportunidades e problemas. Normalmente, sugiro que essa etapa seja de responsabilidade de níveis hierárquicos mais altos na empresa. Quais problemas que nos afligem e podem ser resolvidos com inovações? Quais oportunidades poderíamos criar nos antecipando ao mercado? Recomendo um número limitado de desafios e oportunidades, e a identificação de um prazo para o seu desenvolvimento.

2. Entendimento da oportunidade ou problema. Se for algo ligado ao comportamento ou ao envolvimento de pessoas, recomendamos uma elaborada pesquisa antropológica. Como as pessoas agem em tal situação? Que outras soluções existem para o mesmo problema? Sugerimos que nessa etapa façam anotações (cadernetas de campo, como fazem os antropólogos), tirem fotografias de situações que possam ilustrar o problema ou a oportunidade, conversem com especialistas.

3. Troca de ideias sobre a oportunidade ou o problema. Nada como uma boa conversa sobre a problemática, suas circunstâncias e suas alternativas. Se necessário, volte ao campo.

4. Ideação. Depois de ter explorado exaustivamente o entendimento da questão, passamos à etapa de geração de ideias. Aqui, recomendamos diversas técnicas: brainstorming, associação de ideias, design thinking. Vale tudo: copiar, colar, adaptar, modificar, unir pedaços e fragmentos. O importante nessa fase é gerar o maior número possível de ideias, sem filtros ou restrições. Vale tudo.

5. Agrupar e selecionar ideias. Assim como fazemos com a massa do pão, é importante deixar as ideias descansarem, ou melhor, os autores descansarem das suas ideias. Alguns dias depois, devemos voltar a elas com o compromisso de reduzir o número entre 10% e 20%. Novamente, vale tudo, emendar, recortar, agrupar. As ideias ajustadas devem virar uma proposta de projeto, que será submetida para avaliação.

6. Seleção de ideias ou projetos. Gosto muito do conceito da feira de ideias, em que os autores apresentam suas propostas para terceiros. Em alguns casos, as ideias são votadas, em outros, compradas. Já criamos até mesmo dinheiros e ações para as compras de ideias. Esse momento é quando os vendedores fazem de tudo para convencer os compradores de que suas ideias ou projetos são as melhores. Deve ser também um momento descontraído e, sempre que possível, alegre.

7. Desenvolvimento das ideias. Os conceitos selecionados devem ser elaborados usando os critérios e os métodos de gestão de projetos usados nas empresas. A etapa de criatividade já terminou, e o objetivo agora é a transformação das ideias e dos projetos em algo que possa ser testado e aplicado. O não desenvolvimento das ideias selecionadas pode comprometer o futuro dos projetos de inovação na empresa.

Muitas empresas ficam em dúvida sobre qual o melhor momento para premiar inovações. Pessoalmente, recomendo que isso aconteça somente depois que elas forem implementadas, considerando indicadores claros de impacto e/ou resultado. Mas é sempre simpático e motivador premiar as ideias selecionadas. Uma boa comemoração nessa fase incentiva a geração de ideias e motiva todos a participar.

(*) Carlos Arruda é coordenador do Núcleo de Inovação e Empreendedorismo da Fundação Dom Cabral

Fonte: Fundação Dom Cabral/Pequenas Empresas, Grandes Negócios